Canabidiol em alta dose reduz dor crônica em pacientes com lesão medular, aponta estudo inédito
Ensaio clínico conduzido na Austrália mostra queda significativa na intensidade da dor neuropática com uso de CBD; pesquisadores veem avanço promissor, mas defendem cautela e novos testes

Imagem: Reprodução
Pacientes com lesão medular convivem com um dilema silencioso: sobreviver ao trauma físico, mas permanecer aprisionados a uma dor crônica persistente, resistente aos tratamentos convencionais. Agora, um estudo clínico publicado nesta quarta-feira (27), na revista científica eClinicalMedicine, do grupo The Lancet, traz uma das evidências mais robustas até agora de que o canabidiol (CBD), composto não psicoativo derivado da cannabis, pode aliviar parte desse sofrimento.
Conduzido por pesquisadores da University of Sydney, da Neuroscience Research Australia e do Prince of Wales Hospital, o ensaio clínico randomizado testou doses elevadas de CBD — até 800 miligramas por dia — em pacientes com dor neuropática associada à lesão medular. O resultado: redução estatisticamente significativa da dor relatada pelos participantes, com efeitos colaterais majoritariamente leves.
A pesquisa envolveu 38 adultos com dor neuropática crônica há pelo menos três meses. Todos apresentavam lesões medulares completas ou incompletas e já utilizavam medicamentos tradicionais para controle da dor, como opioides, antidepressivos tricíclicos e gabapentinoides. Ainda assim, continuavam sofrendo com dores intensas.
Segundo o neurologista Luke A. Henderson, autor correspondente do estudo, o problema permanece um dos maiores desafios da medicina de reabilitação.
“A dor neuropática após lesão medular frequentemente é descrita pelos pacientes como pior do que a própria perda motora”, afirmou Henderson no artigo científico.
A dor neuropática surge quando o sistema nervoso sofre danos diretos. Diferentemente de dores inflamatórias ou musculares, ela pode provocar sensação de choque, queimação, formigamento e hipersensibilidade contínua. Estudos anteriores já mostravam que mais de dois terços das pessoas com lesão medular convivem com esse quadro, muitas vezes sem resposta satisfatória aos tratamentos disponíveis.
Historicamente, o uso medicinal da cannabis ganhou força nas últimas duas décadas, impulsionado tanto pela pressão de pacientes quanto pela flexibilização regulatória em diversos países. No entanto, a maioria das pesquisas clínicas envolvendo canabinoides utilizava doses baixas de CBD — geralmente inferiores a 50 mg por dia — e apresentava resultados inconsistentes.
O diferencial do novo estudo australiano foi justamente testar uma estratégia considerada agressiva para os padrões terapêuticos atuais: doses progressivas até alcançar 800 mg diários. Os participantes passaram por duas fases de tratamento de seis semanas cada, recebendo CBD e placebo em momentos alternados, sem saber qual substância estavam usando.
Os resultados chamaram atenção dos pesquisadores. Durante o período ativo com CBD, a intensidade média da dor caiu para 3,82 pontos numa escala de zero a dez, contra 4,36 durante o placebo. A diferença média foi de 0,54 ponto, considerada estatisticamente relevante.
Mais importante: 37,8% dos pacientes atingiram redução igual ou superior a 30% da dor — índice frequentemente utilizado como marcador de melhora clínica moderada em estudos internacionais.
A neurocientista Rebecca V. Robertson, primeira autora do trabalho, destacou que os efeitos observados reforçam hipóteses levantadas em estudos experimentais anteriores.
“Nossos achados sugerem que doses elevadas de CBD podem ter utilidade terapêutica real em dor neuropática crônica, algo que estudos anteriores talvez não tenham conseguido demonstrar por utilizarem doses muito baixas”, escreveram os autores.
Apesar disso, os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: a melhora média geral foi modesta. A redução total da dor ficou em torno de 14%, abaixo do patamar de 30% normalmente associado a um impacto clínico considerado robusto.
Ainda assim, os cientistas argumentam que, para pacientes que convivem diariamente com dores severas e refratárias, pequenas reduções podem representar melhora significativa na qualidade de vida.
O estudo também trouxe dados relevantes sobre segurança. Foram registrados 119 eventos adversos ao longo do ensaio, mas quase todos classificados como leves. Os efeitos mais comuns incluíram sonolência, náusea, diarreia e desconforto gastrointestinal.
Dois participantes abandonaram o estudo devido a reações adversas leves. Casos mais graves registrados — como fratura de fêmur e infecção urinária — foram considerados não relacionados ao CBD.
Para Iain S. McGregor, especialista em canabinoides e coautor do trabalho, os resultados ajudam a preencher uma lacuna científica importante.
“Há enorme uso comunitário de produtos à base de CBD para dor crônica, mas ainda faltavam evidências clínicas sólidas sobre eficácia em doses adequadas”, observou o pesquisador.
A pesquisa também revelou um dado intrigante: pacientes com lesões mais antigas e dores mais prolongadas pareceram responder melhor ao tratamento. Os autores afirmam que isso pode indicar diferenças biológicas importantes entre perfis de pacientes, algo que deverá ser investigado em estudos futuros.
Outro aspecto relevante envolve o debate regulatório global sobre cannabis medicinal. O mercado internacional de produtos à base de CBD movimenta bilhões de dólares por ano e cresce rapidamente em países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Austrália e Brasil.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou nos últimos anos a importação e comercialização controlada de produtos derivados de cannabis para fins medicinais. Mesmo assim, especialistas criticam a distância entre a popularização comercial do CBD e a ainda limitada base científica disponível para diversas doenças.
O estudo australiano surge justamente em meio a esse cenário de expansão acelerada e pressiona por novas pesquisas clínicas de larga escala.
Os autores reconhecem limitações importantes. O número de participantes ainda foi relativamente pequeno. Além disso, muitos pacientes utilizavam diversos medicamentos simultaneamente, o que pode interferir nos efeitos observados.
Também não houve melhora significativa em indicadores secundários como depressão, qualidade do sono ou ansiedade — fatores frequentemente associados à dor crônica.
Mesmo assim, o trabalho é visto por especialistas como um marco relevante por demonstrar, pela primeira vez em um ensaio controlado rigoroso, que altas doses de CBD isolado podem produzir benefício mensurável contra dor neuropática associada à lesão medular.
Ao final do estudo, mais da metade dos participantes declarou intenção de continuar utilizando CBD após o encerramento da pesquisa.
Para milhões de pessoas que convivem diariamente com dores crônicas incapacitantes, a descoberta não representa uma cura. Mas pode indicar o início de uma nova etapa na busca por tratamentos mais eficazes — e menos dependentes de opioides — para um dos sintomas mais devastadores da neurologia moderna.
Referência
Altas doses de canabidiol para dor neuropática crônica associada a lesão medular: um ensaio clínico randomizado. eClinicalMedicineVol. 96 103986 Publicado: 27 de maio de 2026. Rebeca V. Robertson, Anastasia Suraev, Danielle McCartney, Allan Peng, Noemi Meylakh, Rebeca Gordone outros. DOI: 10.1016/j.eclinm.2026.103986